Sábado, 25 de Fevereiro de 2017

Naufrágio

«Sabes, não te amo, nunca te disse, e acho mesmo que nunca te vou dizer. Gosto que me ames, é confortável, mas já não acredito no amor, acho mesmo que já nem no teu amor acredito.

Não sei se é isto que quero dizer, nem sei se é bem isto que estou a sentir, mas estou cada vez mais ácida, não sentes nos meus beijos o travo a um verde limão e lima cortado por gin. Perdi o sabor a cerejas maduras e o aroma a searas de trigo de fim de Verão e a hortelã, eu, que punha hortelã em tudo.

A vida não me tem sido fácil. Dizem que as coisas têm um sabor diferente quando lutamos por elas, mas já estou farta, ou basicamente decepcionada, para lutar. Ficou um sabor que chega a provocar-me náuseas, enjoos e dores no estômago, naufraguei no meio da vida, sou arrastada, ainda nado, mas sem saber para onde vou, mas sem saber se vou para terra.

A vida nunca te enjoou. Gostas de tudo e nem perguntas porquê. Talvez seja esse o meu problema, a necessidade constante de saber o porquê das coisas. Porque é que o céu é azul, o mar é azul, os teus olhos são castanhos, e as minhas lágrimas, carregadas de desilusão são simplesmente transparentes. Na vida, nada é constante, e eu não posso ser diferente.

O Professor Agostinho da Silva dizia qualquer coisa como: “ não devemos ter planos para a vida, para não estragarmos os planos que a vida tem para nós”. A coisa tem o seu quê de ironia, será que só me resta concluir que estive até este momento a remar contra a maré, por isso agora vai ser diferente, agora que naufraguei, agora que bati no fundo, agora que perdi o norte, agora, vou deixar de ter medo de andar à deriva em alto mar, vou deixar de ter medo de perder o controlo das situações, da minha vida, e que me levem as ondas para o chão que quiserem.»

 

In A Solidão dos Inconstantes, Raquel Serejo Martins (pp. 58-59)


publicado por Cris às 19:35
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6 comentários:
De Malik a 25 de Fevereiro de 2017 às 19:48
Muito bom.


De Cris a 25 de Fevereiro de 2017 às 19:56
Também gostei bastante! Obrigada pela visita.


De golimix a 5 de Março de 2017 às 11:59
Gostei muito!!!
Embora admita que deixar-mo-nos naufragar e perder o norte não é fácil.


De Cris a 25 de Março de 2017 às 08:17
Basta avariar a bússola.


De José da Xã a 5 de Março de 2017 às 23:46
Uma reflexão um tanto pessimista.
A vida seja ela qual for ou como for deve ser vivida na sua plenitude.
Mesmo que durante longos anos tenhamos momentos menos bons, há sempre uma coisa ínfima, muito boa que vale por tudo.
Beijos para uma boa semana!


De Cris a 25 de Março de 2017 às 08:20
ó José, e aquelas pessoas que são maltratadas quer física quer psicologicamente ao longo duma vida?
Beijinhos


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