Sábado, 25 de Março de 2017

Os odiosos

«Há pessoas que vêm a este mundo para serem amadas. Outras para amarem.

Muitas, para passarem despercebidas, maltratadas, ignoradas, na presença de um amor sempre ausente.

Umas sentem a felicidade, outras vivem na tristeza; umas sentem prazer pela vida, outras desprezam essa dádiva e partem.

Não há indiferentes, inertes e indolores.

Mas há os que cá vieram para serem odiados. Por serem maus ou simplesmente por ignorarem os sentimentos alheios, como se fossem o que de mais importante emergiu à superfície da terra. Para gerarem o caos e nos deitarem por terra. Tu és um desses. E nada fará mudar a tua natureza. E não há justiça terrena capaz de te fazer pagar pelos fios rasgados nas entranhas de quem anulaste. As palavras que me jogaste com incertezas, magoam-me com uma profundidade certeira, que me atingiu por volta do coração. Nunca voltarei atrás. Se estou viva, é porque ainda não morri. O que sinto por ti é simplesmente ódio. Não o nego. Que tenhas uma vida tão má como aquela que me deste, isto se houver algum laivo de justiça neste mundo.»

 

in Voltas?, Teresa Klut, arca das letras editora, 2006, pp.46-47


publicado por Cris às 08:21
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Sábado, 25 de Fevereiro de 2017

Naufrágio

«Sabes, não te amo, nunca te disse, e acho mesmo que nunca te vou dizer. Gosto que me ames, é confortável, mas já não acredito no amor, acho mesmo que já nem no teu amor acredito.

Não sei se é isto que quero dizer, nem sei se é bem isto que estou a sentir, mas estou cada vez mais ácida, não sentes nos meus beijos o travo a um verde limão e lima cortado por gin. Perdi o sabor a cerejas maduras e o aroma a searas de trigo de fim de Verão e a hortelã, eu, que punha hortelã em tudo.

A vida não me tem sido fácil. Dizem que as coisas têm um sabor diferente quando lutamos por elas, mas já estou farta, ou basicamente decepcionada, para lutar. Ficou um sabor que chega a provocar-me náuseas, enjoos e dores no estômago, naufraguei no meio da vida, sou arrastada, ainda nado, mas sem saber para onde vou, mas sem saber se vou para terra.

A vida nunca te enjoou. Gostas de tudo e nem perguntas porquê. Talvez seja esse o meu problema, a necessidade constante de saber o porquê das coisas. Porque é que o céu é azul, o mar é azul, os teus olhos são castanhos, e as minhas lágrimas, carregadas de desilusão são simplesmente transparentes. Na vida, nada é constante, e eu não posso ser diferente.

O Professor Agostinho da Silva dizia qualquer coisa como: “ não devemos ter planos para a vida, para não estragarmos os planos que a vida tem para nós”. A coisa tem o seu quê de ironia, será que só me resta concluir que estive até este momento a remar contra a maré, por isso agora vai ser diferente, agora que naufraguei, agora que bati no fundo, agora que perdi o norte, agora, vou deixar de ter medo de andar à deriva em alto mar, vou deixar de ter medo de perder o controlo das situações, da minha vida, e que me levem as ondas para o chão que quiserem.»

 

In A Solidão dos Inconstantes, Raquel Serejo Martins (pp. 58-59)


publicado por Cris às 19:35
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